Interdependência

Interdependência

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo;
todos são parte do continente, uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar,
a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio.
A morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti”.

(John Donne, Meditações VII)

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Onde está Deus

Árvore

O servo anunciou ao rei: “Senhor, o santo Narottan nunca se dignou entrar no teu templo real. Ele canta louvores a Deus sob as árvores, em campo aberto. Ninguém mais vai adorar no templo. Todos se reúnem em torno dele, como abelhas ao redor de um lótus branco, e deixam vazio o jarro dourado para o mel”.

O rei ficou profundamente irritado. Foi até o campo onde Narottan rezava, sentado na relva, e lhe disse: “Pai, por que abandonas o templo com a cúpula de ouro, e ficas aí, sentado no chão, para anunciar o amor de Deus?”

Narottan respondeu: “É porque Deus não está em teu templo”.

O rei olhou com desagrado, e disse: “Não sabes que foram gastos vinte milhões em ouro para construir aquela obra de arte, e que depois o templo foi consagrado a Deus com ritos custosos?”

“Sei disso” – respondeu Narottan. “Sei também que ele foi construído naquele ano em que o fogo destruiu a casa de centenas de famílias do teu povo, e que elas em vão se prostraram à tua porta, pedindo ajuda. E Deus já dizia: ‘Pobre criatura que não pode oferecer abrigo a seus irmãos, e pretende construir a minha casa!’ Deus foi fazer companhia aos desabrigados, debaixo das árvores do campo… Essa pompa de ouro de que estás falando não tem dentro dela nada mais que o ardente vapor de teu orgulho”.

O rei se enfureceu e gritou: “Vai embora de meu Reino!”

O santo lhe respondeu tranquilamente: “Sim, expulsa-me para onde expulsaste o meu Deus”.

(Tagore, “A colheita”, Paulus.)

Partida

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A morte não é nada.
Ela não conta.
Eu apenas escapuli para a próxima sala.
Nada aconteceu.
Tudo permanece exatamente como foi.
Eu sou eu, vocês são vocês, e a antiga vida que vivemos tão carinhosamente juntos permanece intocada, imutável.
O que quer que fôssemos um para o outro, ainda o somos.
Chamem-me pelo antigo nome familiar.
Falem de mim da maneira mais fácil como vocês sempre costumavam fazer.
Não usem um tom de voz diferente.
Não usem ar forçado de solenidade ou tristeza.
Riam como sempre ríamos das piadas com as quais nos divertíamos juntos.
Toquem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.
Permitam que meu nome seja para sempre a palavra familiar que sempre foi.
Que ele seja pronunciado sem esforço, sem o fantasma de uma sombra sobre ele.
A vida significa tudo o que sempre significou.
Ela é o mesmo que sempre foi.
Há uma continuidade absoluta e inquebrável.
O que é esta morte, senão um acidente insignificante?
Por que eu deveria estar fora da mente por estar fora da vista?
Estou apenas esperando por vocês, por um intervalo, em algum lugar muito próximo, ao virar da esquina.
Tudo está bem.
Nada está ferido, nada está perdido.
Um breve momento e tudo será como antes.
Como vamos rir da dificuldade desta partida quando nos encontrarmos novamente!

(Henry Scott Holland, autoria controversa)

Não te afastes

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Se a porta do meu coração
ficasse fechada para Ti,
derruba-a, eu te peço: não te afastes.

Se as cordas do meu coração
não vibrassem um cântico para Ti,
aguarda, eu te suplico: não te afastes.

E se um dia, ao chamamento da Tua voz,
não acordasse para Ti,
que a tua dor me desperte: não te afastes.

Se depois, louco,
um ídolo erguesse em teu trono de rei,
tem piedade de mim, Senhor: não te afastes!

(Rabindranath Tagore)

Liberdade

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“Um dia, muito antes de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas
– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:

“É um louco!”

Olhei para cima, para vê-lo.
E então o sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim tornei-me louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança
em minha loucura: a liberdade da solidão
e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós”.

(Gibran Khalil Gibran)

Deus no outro

Mãos

“Não vá ao templo depositar flores aos pés de Deus;
antes encha sua própria casa com o perfume do amor!
Não vá ao templo acender velas perante o altar de Deus;
antes remova a escuridão do pecado no seu coração!
Não vá ao templo baixar a cabeça em oração;
antes aprenda a inclinar-se humildemente perante seus semelhantes!
Não vá ao templo ajoelhar-se para rezar;
antes se curve para erguer um oprimido!
Não vá ao templo pedir perdão por seus pecados;
antes perdoe de coração aqueles que pecaram contra você!”

Rabindranath Tagore

O herói

Tagore

Mãe, vamos imaginar que estamos em viagem, atravessando uma terra estranha e perigosa. Tu vais sentada em um palanquim e eu sigo a teu lado, em um fogoso cavalo. Já é tarde e o sol se esconde. À nossa frente estende-se o deserto de Joradighi, solitário e cinzento. Ao nosso redor tudo é desolado e seco. Estás com medo e pensas: “Não sei para onde estamos indo”. Mas eu te digo: “Mãe, não tenhas medo!”

O campo está coberto de plantas espinhosas, e através dele corre uma trilha apertada e tortuosa. No vasto campo não se vê nenhum sinal dos rebanhos; todos já voltaram para os estábulos na aldeia. O céu e a terra se tornam cada vez mais escuros e vazios, e nós já não vemos por onde estamos passando. De repente tu me chamas, perguntando baixinho: “Que luz é aquela, perto da margem?”

Neste momento ouve-se um alarido medonho, e muitos vultos vêm correndo em nossa direção. Tu te encolhes no palanquim e, rezando, invocas os nomes dos deuses. Os carregadores tremem de medo e se escondem nas moitas de espinhos. Mas eu grito a ti: “Mãe, não tenhas medo! Eu estou aqui!”

Os bandidos se aproximam cada vez mais, com cabelos selvagens e longas lanças na mão. Eu lhes grito: “Para trás, vilões! Mais um passo e estareis todos mortos!” Mas eles dão outro grito medonho, e avançam. Tu me agarras pela mão e me dizes: “Filho querido, pelo amor de Deus, foge daqui!” Eu te respondo: “Mãe, olha bem do que sou capaz!”

Então esporeio o cavalo em furioso galope, com a espada e o escudo retinindo um no outro. O combate é tão terrível, mãe, que, se o visses de teu palanquim, terias arrepios de pavor. Muitos fogem, e outros são cortados em pedaços. Sei que, enquanto isso, sentada ali sozinha, ficarás pensando que a essa altura teu filho já estará morto. Mas eu volto a ti, coberto de sangue, e digo: “Mãe, a luta já terminou!” Então tu desces do palanquim, me apertas ao peito e me beijas, pensando: “Não sei o que seria de mim sem este meu rapaz para me proteger!”

Mãe, todos os dias acontecem coisas insignificantes. Por que uma estória como essa não poderia ser de verdade? Seria como um conto em um livro. Meu irmão diria: “Como é possível? Sempre achei que ele fosse tão fraquinho!” O povo da aldeia ficaria espantado e diria: “De fato! Foi muita sorte o rapaz estar com sua mãe!”

(Rabindranath Tagore, A lua crescente)