Liberdade

Mask_by_guitarjohnny

“Um dia, muito antes de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas
– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:

“É um louco!”

Olhei para cima, para vê-lo.
E então o sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim tornei-me louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança
em minha loucura: a liberdade da solidão
e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós”.

(Gibran Khalil Gibran)

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Deus no outro

Mãos

“Não vá ao templo depositar flores aos pés de Deus;
antes encha sua própria casa com o perfume do amor!
Não vá ao templo acender velas perante o altar de Deus;
antes remova a escuridão do pecado no seu coração!
Não vá ao templo baixar a cabeça em oração;
antes aprenda a inclinar-se humildemente perante seus semelhantes!
Não vá ao templo ajoelhar-se para rezar;
antes se curve para erguer um oprimido!
Não vá ao templo pedir perdão por seus pecados;
antes perdoe de coração aqueles que pecaram contra você!”

Rabindranath Tagore

O herói

Tagore

Mãe, vamos imaginar que estamos em viagem, atravessando uma terra estranha e perigosa. Tu vais sentada em um palanquim e eu sigo a teu lado, em um fogoso cavalo. Já é tarde e o sol se esconde. À nossa frente estende-se o deserto de Joradighi, solitário e cinzento. Ao nosso redor tudo é desolado e seco. Estás com medo e pensas: “Não sei para onde estamos indo”. Mas eu te digo: “Mãe, não tenhas medo!”

O campo está coberto de plantas espinhosas, e através dele corre uma trilha apertada e tortuosa. No vasto campo não se vê nenhum sinal dos rebanhos; todos já voltaram para os estábulos na aldeia. O céu e a terra se tornam cada vez mais escuros e vazios, e nós já não vemos por onde estamos passando. De repente tu me chamas, perguntando baixinho: “Que luz é aquela, perto da margem?”

Neste momento ouve-se um alarido medonho, e muitos vultos vêm correndo em nossa direção. Tu te encolhes no palanquim e, rezando, invocas os nomes dos deuses. Os carregadores tremem de medo e se escondem nas moitas de espinhos. Mas eu grito a ti: “Mãe, não tenhas medo! Eu estou aqui!”

Os bandidos se aproximam cada vez mais, com cabelos selvagens e longas lanças na mão. Eu lhes grito: “Para trás, vilões! Mais um passo e estareis todos mortos!” Mas eles dão outro grito medonho, e avançam. Tu me agarras pela mão e me dizes: “Filho querido, pelo amor de Deus, foge daqui!” Eu te respondo: “Mãe, olha bem do que sou capaz!”

Então esporeio o cavalo em furioso galope, com a espada e o escudo retinindo um no outro. O combate é tão terrível, mãe, que, se o visses de teu palanquim, terias arrepios de pavor. Muitos fogem, e outros são cortados em pedaços. Sei que, enquanto isso, sentada ali sozinha, ficarás pensando que a essa altura teu filho já estará morto. Mas eu volto a ti, coberto de sangue, e digo: “Mãe, a luta já terminou!” Então tu desces do palanquim, me apertas ao peito e me beijas, pensando: “Não sei o que seria de mim sem este meu rapaz para me proteger!”

Mãe, todos os dias acontecem coisas insignificantes. Por que uma estória como essa não poderia ser de verdade? Seria como um conto em um livro. Meu irmão diria: “Como é possível? Sempre achei que ele fosse tão fraquinho!” O povo da aldeia ficaria espantado e diria: “De fato! Foi muita sorte o rapaz estar com sua mãe!”

(Rabindranath Tagore, A lua crescente)

Miguilim e a luz de seus olhos

De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro de roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

– Deus te abençoe, pequeninho. Como é teu nome?
– Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
– E o seu irmão Dito é o dono daqui?
– Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:

– Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda… Mas, que é que há, Miguilim?

Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.

– Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
– É Mãe, e os meninos…

Estava Mãe, estava tio Terêz, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: – “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

Miguilim espremia os olhos. Drelina e Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.

– Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim…

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

– Olha, agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo… O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, à Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: – “Miguilim, você é Piticego…” E ele respondeu: – “Donazinha…”

Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.

– “Você está triste, Miguilim?” – Mãe perguntou.

Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.

– Pra onde ele foi?
– A foi p’ra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’embora para a cidade. Disse que, você querendo, Miguilim, ele junto te leva… – O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. – “Você mesmo quer ir?”

Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até ao fundo, se esfriava. Mas mãe disse:

– Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram…

(Corpo de Baile in Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, 18ª reimpressão, Rio de Janeiro, 1984.)

Quero amigos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

(Oscar Wilde)


Amor, alegria, inconsequência, felicidade

Amor não é o que nos atrai em alguém.
Isso é atração, paixão, ou qualquer coisa parecida.
Amor é o que nos mantém unidos.
Quanto menos sentimentos exaltados, mais amor, união e durabilidade.
O amor é um sentimento embaraçado nas raízes profundas do sentimento.
Quem ama nem tem consciência dessas raízes. Teme-as. Prefere não vê-las.
Porque vê-las será revelar-se. E revelar-se assusta.
O amor é também o sentimento misturado com rejeição,
raiva, irritação, convivência, desinteresse, tédio, o vazio a dois,
o sumiço da paixão e as emoções mais intensas.
Ele é tão grande, tão pleno, tão poderoso e incrível
que resiste a tudo isso, inclusive às impossibilidades,
estranho veneno que o alimenta.
Mas isso é amor que dói.
Amor saudável é apenas bom.
Você não deixa de amar
só porque já não gosta igual ou não sente a mesma atração.
Talvez só então você comece a ficar maduro o suficiente para poder começar a amar.
Pessoas que se atraem à perdição talvez ainda nem começaram a se amar.
Enquanto apenas se atraírem, não alcançarão o amor.
Alcançar o amor tem tanto de renúncia quanto de alegria,
felicidade ou glória.
Sim, a felicidade pessoal é compatível com o amor.
Infelicidade, jamais.
Mas amor é sério demais para almejar apenas felicidade.
O amor visa à eternidade.
A felicidade é apenas um caminho para ela.
E assim como é preciso alguma crueldade para viver,
assim como há sempre alguma agressão embrulhada em qualquer vitória,
assim também a alegria precisa de alguma inconsequência.
Sem esta, restará apenas a lucidez, que é sempre repleta de ”trágicos deveres”.
Libertando-nos da plena consciência, a inconsequência nos permite alguma alegria.
Mas a felicidade já é outro assunto.
Está no campo do amor.
Felicidade ganha de alegria assim como amor ganha de paixão.
Mesmo quando venha nesta embrulhado.

(Encontrei este texto navegando por aí. Não sei de quem é a autoria.)