Lamparina

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Entre as altas folhagens da margem do rio desolado, eu lhe perguntei: “Jovem, aonde vais, cobrindo a lamparina com teu manto? Minha casa está escura e solitária. Empresta-me tua luz!” Ela ergueu os olhos escuros um momento, encarou-me à luz do poente, e respondeu: “Eu vim a este rio para colocar minha lamparina na correnteza quando a luz do dia se apagar no ocaso”. E eu fiquei sozinho entre as folhagens altas, observando a tímida chama que deslizava inutilmente na correnteza.

No silêncio da noite que baixava, eu lhe perguntei: “Jovem, tuas luzes estão todas acesas. Aonde vais com tua lamparina? Minha casa está escura e solitária. Empresta-me tua luz!” Ela ergueu os olhos escuros até minha face, ficou um momento em dúvida, e depois respondeu: “Eu vim oferecer minha lamparina para o céu”. E eu fiquei parado, observando sua luz queimando inutilmente no vazio.

Na escuridão sem lua da meia-noite, eu lhe perguntei: “Jovem, o que buscas, segurando tua lamparina assim junto ao coração? Minha casa está escura e solitária. Empresta-me tua luz!” Ela parou um momento, pensou e, fitando meu rosto na escuridão, respondeu: “Eu trouxe minha luz para o carnaval das lamparinas”. E eu fiquei parado, observando sua pequena lamparina inutilmente perdida entre as luzes.

(Rabindranath Tagore, Gitanjali, 64)

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Agora é o milagre da vida

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“Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo, nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.”

Vergílio Ferreira

Não te afastes

Hands Heaven Earth

Se a porta do meu coração
ficasse fechada para Ti,
derruba-a, eu te peço: não te afastes.

Se as cordas do meu coração
não vibrassem um cântico para Ti,
aguarda, eu te suplico: não te afastes.

E se um dia, ao chamamento da Tua voz,
não acordasse para Ti,
que a tua dor me desperte: não te afastes.

Se depois, louco,
um ídolo erguesse em teu trono de rei,
tem piedade de mim, Senhor: não te afastes!

(Rabindranath Tagore)

Miguilim e a luz de seus olhos

De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro de roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

– Deus te abençoe, pequeninho. Como é teu nome?
– Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
– E o seu irmão Dito é o dono daqui?
– Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:

– Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda… Mas, que é que há, Miguilim?

Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.

– Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
– É Mãe, e os meninos…

Estava Mãe, estava tio Terêz, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: – “Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

Miguilim espremia os olhos. Drelina e Chica riam. Tomezinho tinha ido se esconder.

– Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espera aí, Miguilim…

E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.

– Olha, agora!

Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo… O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia. Coração de Miguilim batia descompasso, ele careceu de ir lá dentro, contar à Rosa, à Maria Pretinha, à Mãitina. A Chica veio correndo atrás, mexeu: – “Miguilim, você é Piticego…” E ele respondeu: – “Donazinha…”

Quando voltou, o doutor José Lourenço já tinha ido embora.

– “Você está triste, Miguilim?” – Mãe perguntou.

Miguilim não sabia. Todos eram maiores do que ele, as coisas reviravam sempre dum modo tão diferente, eram grandes demais.

– Pra onde ele foi?
– A foi p’ra a Vereda do Tipã, onde os caçadores estão. Mas amanhã ele volta, de manhã, antes de ir s’embora para a cidade. Disse que, você querendo, Miguilim, ele junto te leva… – O doutor era homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. – “Você mesmo quer ir?”

Miguilim não sabia. Fazia peso para não soluçar. Sua alma, até ao fundo, se esfriava. Mas mãe disse:

– Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram…

(Corpo de Baile in Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, 18ª reimpressão, Rio de Janeiro, 1984.)

Quero amigos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

(Oscar Wilde)


Amor, alegria, inconsequência, felicidade

Amor não é o que nos atrai em alguém.
Isso é atração, paixão, ou qualquer coisa parecida.
Amor é o que nos mantém unidos.
Quanto menos sentimentos exaltados, mais amor, união e durabilidade.
O amor é um sentimento embaraçado nas raízes profundas do sentimento.
Quem ama nem tem consciência dessas raízes. Teme-as. Prefere não vê-las.
Porque vê-las será revelar-se. E revelar-se assusta.
O amor é também o sentimento misturado com rejeição,
raiva, irritação, convivência, desinteresse, tédio, o vazio a dois,
o sumiço da paixão e as emoções mais intensas.
Ele é tão grande, tão pleno, tão poderoso e incrível
que resiste a tudo isso, inclusive às impossibilidades,
estranho veneno que o alimenta.
Mas isso é amor que dói.
Amor saudável é apenas bom.
Você não deixa de amar
só porque já não gosta igual ou não sente a mesma atração.
Talvez só então você comece a ficar maduro o suficiente para poder começar a amar.
Pessoas que se atraem à perdição talvez ainda nem começaram a se amar.
Enquanto apenas se atraírem, não alcançarão o amor.
Alcançar o amor tem tanto de renúncia quanto de alegria,
felicidade ou glória.
Sim, a felicidade pessoal é compatível com o amor.
Infelicidade, jamais.
Mas amor é sério demais para almejar apenas felicidade.
O amor visa à eternidade.
A felicidade é apenas um caminho para ela.
E assim como é preciso alguma crueldade para viver,
assim como há sempre alguma agressão embrulhada em qualquer vitória,
assim também a alegria precisa de alguma inconsequência.
Sem esta, restará apenas a lucidez, que é sempre repleta de ”trágicos deveres”.
Libertando-nos da plena consciência, a inconsequência nos permite alguma alegria.
Mas a felicidade já é outro assunto.
Está no campo do amor.
Felicidade ganha de alegria assim como amor ganha de paixão.
Mesmo quando venha nesta embrulhado.

(Encontrei este texto navegando por aí. Não sei de quem é a autoria.)