O herói

Tagore

Mãe, vamos imaginar que estamos em viagem, atravessando uma terra estranha e perigosa. Tu vais sentada em um palanquim e eu sigo a teu lado, em um fogoso cavalo. Já é tarde e o sol se esconde. À nossa frente estende-se o deserto de Joradighi, solitário e cinzento. Ao nosso redor tudo é desolado e seco. Estás com medo e pensas: “Não sei para onde estamos indo”. Mas eu te digo: “Mãe, não tenhas medo!”

O campo está coberto de plantas espinhosas, e através dele corre uma trilha apertada e tortuosa. No vasto campo não se vê nenhum sinal dos rebanhos; todos já voltaram para os estábulos na aldeia. O céu e a terra se tornam cada vez mais escuros e vazios, e nós já não vemos por onde estamos passando. De repente tu me chamas, perguntando baixinho: “Que luz é aquela, perto da margem?”

Neste momento ouve-se um alarido medonho, e muitos vultos vêm correndo em nossa direção. Tu te encolhes no palanquim e, rezando, invocas os nomes dos deuses. Os carregadores tremem de medo e se escondem nas moitas de espinhos. Mas eu grito a ti: “Mãe, não tenhas medo! Eu estou aqui!”

Os bandidos se aproximam cada vez mais, com cabelos selvagens e longas lanças na mão. Eu lhes grito: “Para trás, vilões! Mais um passo e estareis todos mortos!” Mas eles dão outro grito medonho, e avançam. Tu me agarras pela mão e me dizes: “Filho querido, pelo amor de Deus, foge daqui!” Eu te respondo: “Mãe, olha bem do que sou capaz!”

Então esporeio o cavalo em furioso galope, com a espada e o escudo retinindo um no outro. O combate é tão terrível, mãe, que, se o visses de teu palanquim, terias arrepios de pavor. Muitos fogem, e outros são cortados em pedaços. Sei que, enquanto isso, sentada ali sozinha, ficarás pensando que a essa altura teu filho já estará morto. Mas eu volto a ti, coberto de sangue, e digo: “Mãe, a luta já terminou!” Então tu desces do palanquim, me apertas ao peito e me beijas, pensando: “Não sei o que seria de mim sem este meu rapaz para me proteger!”

Mãe, todos os dias acontecem coisas insignificantes. Por que uma estória como essa não poderia ser de verdade? Seria como um conto em um livro. Meu irmão diria: “Como é possível? Sempre achei que ele fosse tão fraquinho!” O povo da aldeia ficaria espantado e diria: “De fato! Foi muita sorte o rapaz estar com sua mãe!”

(Rabindranath Tagore, A lua crescente)

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