Agora é o milagre da vida

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“Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo, nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.”

Vergílio Ferreira

As coisas que errei na vida

Ponte

As coisas que errei na vida
São as que acharei na morte,
Porque a vida é dividida
Entre quem sou e a sorte.

As coisas que a Sorte deu
Levou-as ela consigo,
Mas as coisas que sou eu
Guardei-as todas comigo.

E por isso os erros meus,
Sendo a má sorte que tive,
Terei que os buscar nos céus
Quando a morte tire os véus
À inconsciência em que estive.

(Fernando Pessoa)

Novas Poesias Inéditas. Direção, organização e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno. Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).

Interdependência

Interdependência

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo;
todos são parte do continente, uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar,
a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio.
A morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti”.

(John Donne, Meditações VII)

Onde está Deus

Árvore

O servo anunciou ao rei: “Senhor, o santo Narottan nunca se dignou entrar no teu templo real. Ele canta louvores a Deus sob as árvores, em campo aberto. Ninguém mais vai adorar no templo. Todos se reúnem em torno dele, como abelhas ao redor de um lótus branco, e deixam vazio o jarro dourado para o mel”.

O rei ficou profundamente irritado. Foi até o campo onde Narottan rezava, sentado na relva, e lhe disse: “Pai, por que abandonas o templo com a cúpula de ouro, e ficas aí, sentado no chão, para anunciar o amor de Deus?”

Narottan respondeu: “É porque Deus não está em teu templo”.

O rei olhou com desagrado, e disse: “Não sabes que foram gastos vinte milhões em ouro para construir aquela obra de arte, e que depois o templo foi consagrado a Deus com ritos custosos?”

“Sei disso” – respondeu Narottan. “Sei também que ele foi construído naquele ano em que o fogo destruiu a casa de centenas de famílias do teu povo, e que elas em vão se prostraram à tua porta, pedindo ajuda. E Deus já dizia: ‘Pobre criatura que não pode oferecer abrigo a seus irmãos, e pretende construir a minha casa!’ Deus foi fazer companhia aos desabrigados, debaixo das árvores do campo… Essa pompa de ouro de que estás falando não tem dentro dela nada mais que o ardente vapor de teu orgulho”.

O rei se enfureceu e gritou: “Vai embora de meu Reino!”

O santo lhe respondeu tranquilamente: “Sim, expulsa-me para onde expulsaste o meu Deus”.

(Tagore, “A colheita”, Paulus.)

Partida

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A morte não é nada.
Ela não conta.
Eu apenas escapuli para a próxima sala.
Nada aconteceu.
Tudo permanece exatamente como foi.
Eu sou eu, vocês são vocês, e a antiga vida que vivemos tão carinhosamente juntos permanece intocada, imutável.
O que quer que fôssemos um para o outro, ainda o somos.
Chamem-me pelo antigo nome familiar.
Falem de mim da maneira mais fácil como vocês sempre costumavam fazer.
Não usem um tom de voz diferente.
Não usem ar forçado de solenidade ou tristeza.
Riam como sempre ríamos das piadas com as quais nos divertíamos juntos.
Toquem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.
Permitam que meu nome seja para sempre a palavra familiar que sempre foi.
Que ele seja pronunciado sem esforço, sem o fantasma de uma sombra sobre ele.
A vida significa tudo o que sempre significou.
Ela é o mesmo que sempre foi.
Há uma continuidade absoluta e inquebrável.
O que é esta morte, senão um acidente insignificante?
Por que eu deveria estar fora da mente por estar fora da vista?
Estou apenas esperando por vocês, por um intervalo, em algum lugar muito próximo, ao virar da esquina.
Tudo está bem.
Nada está ferido, nada está perdido.
Um breve momento e tudo será como antes.
Como vamos rir da dificuldade desta partida quando nos encontrarmos novamente!

(Henry Scott Holland, autoria controversa)

Não te afastes

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Se a porta do meu coração
ficasse fechada para Ti,
derruba-a, eu te peço: não te afastes.

Se as cordas do meu coração
não vibrassem um cântico para Ti,
aguarda, eu te suplico: não te afastes.

E se um dia, ao chamamento da Tua voz,
não acordasse para Ti,
que a tua dor me desperte: não te afastes.

Se depois, louco,
um ídolo erguesse em teu trono de rei,
tem piedade de mim, Senhor: não te afastes!

(Rabindranath Tagore)

Liberdade

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“Um dia, muito antes de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas
– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:

“É um louco!”

Olhei para cima, para vê-lo.
E então o sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim tornei-me louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança
em minha loucura: a liberdade da solidão
e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós”.

(Gibran Khalil Gibran)