Os dois lobos

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Os anciões Cherokee estavam preocupados com um dos garotos da tribo que, por se sentir injustiçado, tornou-se agressivo. O avô do menino o trouxe para perto de si e disse:

— Eu entendo sua raiva.
Há uma batalha terrível entre dois lobos que vivem dentro de mim.
Esses dois lobos tentam dominar o espírito de todos nós.
Um é Mau. Seus dentes são fortes como raiva, inveja, ciúme, tristeza, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, orgulho, superioridade e ego.
O outro é Bom. Seu olhar é forte como alegria, esperança, serenidade, paz, humildade, empatia, bondade, generosidade, verdade, perdão, compaixão, harmonia e fé.

O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô:
 Qual lobo vence?

O velho índio respondeu:
— Aquele que você alimenta!

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Ressurreição

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Ameaçaram-nos com a Ressurreição

Há algo dentro de nós
que não nos deixa dormir,
que não nos deixa descansar,
que não pára de martelar
nas profundezas do ser.
É algo silencioso, um choro quente
de índias sem seus maridos,
é o olhar pasmo e triste das crianças
fixo num ponto além da memória,
refletido na própria pupila dos nossos olhos
que, mesmo fechados, durante o sonho,
vigiam cada contração do coração,
a cada despertar…
Todo um exército
testemunha a nossa dor, o nosso medo,
a nossa coragem, a nossa esperança!

O que nos impede de dormir
é que nos ameaçaram com a Ressurreição!
Porque a cada anoitecer,
mesmo cansados do interminável inventário
dos que foram mortos desde 1954,
nós continuamos a amar a vida
e não aceitamos a morte deles!
Ameaçaram-nos com a Ressurreição
porque sentimos seus corpos inertes
e suas almas penetraram as nossas
duplamente fortalecidas.

Porque nesta maratona da Esperança
há sempre outros para ajudar-nos
a cobrar a coragem necessária
para alcançar a meta que nos aguarda
além da morte.
Ameaçaram-nos com a Ressurreição
porque não poderão arrebatar-nos
seus corpos, suas almas,
sua força, seu espírito,
nem mesmo sua morte
e muito menos sua vida.

Porque eles vivem
hoje, amanhã e sempre
nas ruas balizadas com seu sangue
e no ar que lhes acolheu o grito,
na selva que lhes esconde as sombras,
no rio que lhes recolheu o riso,
no oceano que lhes guarda os segredos,
nas crateras dos vulcões,
Pirâmides do Novo Dia,
que lhes tragaram as cinzas.

Ameaçaram-nos com a Ressurreição
porque eles estão mais vivos do que antes,
porque transformam as nossas agonias
e fertilizam a nossa luta,
porque nos reerguem quando caímos
e nos armam como gigantes
contra o medo desses gorilas enlouquecidos.

Ameaçaram-nos com a Ressurreição
porque não conhecem a vida (pobres coisas!).
É esse turbilhão
que não nos deixa dormir,
a razão por que, dormindo, vigiamos,
e despertos, sonhamos.
Não, não são os rumores das ruas,
nem os gritos dos bêbados do bar “São Paulo”,
nem o alarido dos fãs do futebol.
É o ciclone no seio de uma luta caleidoscópica
que curará a ferida do quetzal
que caiu em Ixcan.
É o terremoto iminente que abalará o mundo
e a tudo reporá no seu lugar.
Não, irmão,
não é o rumor das ruas
que não nos deixa dormir.

Acompanhe-nos, pois, nesta vigília
e saberás o que é sonhar!
E saberás então
como é maravilhoso
viver ameaçado com a Ressurreição!
Sonhar acordado,
vigiar dormindo,
viver enquanto se morre
e já se saber ressuscitado!

(Júlia Esquivel)

Lamparina

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Entre as altas folhagens da margem do rio desolado, eu lhe perguntei: “Jovem, aonde vais, cobrindo a lamparina com teu manto? Minha casa está escura e solitária. Empresta-me tua luz!” Ela ergueu os olhos escuros um momento, encarou-me à luz do poente, e respondeu: “Eu vim a este rio para colocar minha lamparina na correnteza quando a luz do dia se apagar no ocaso”. E eu fiquei sozinho entre as folhagens altas, observando a tímida chama que deslizava inutilmente na correnteza.

No silêncio da noite que baixava, eu lhe perguntei: “Jovem, tuas luzes estão todas acesas. Aonde vais com tua lamparina? Minha casa está escura e solitária. Empresta-me tua luz!” Ela ergueu os olhos escuros até minha face, ficou um momento em dúvida, e depois respondeu: “Eu vim oferecer minha lamparina para o céu”. E eu fiquei parado, observando sua luz queimando inutilmente no vazio.

Na escuridão sem lua da meia-noite, eu lhe perguntei: “Jovem, o que buscas, segurando tua lamparina assim junto ao coração? Minha casa está escura e solitária. Empresta-me tua luz!” Ela parou um momento, pensou e, fitando meu rosto na escuridão, respondeu: “Eu trouxe minha luz para o carnaval das lamparinas”. E eu fiquei parado, observando sua pequena lamparina inutilmente perdida entre as luzes.

(Rabindranath Tagore, Gitanjali, 64)

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Agora é o milagre da vida

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“Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo, nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.”

Vergílio Ferreira

As coisas que errei na vida

Ponte

As coisas que errei na vida
São as que acharei na morte,
Porque a vida é dividida
Entre quem sou e a sorte.

As coisas que a Sorte deu
Levou-as ela consigo,
Mas as coisas que sou eu
Guardei-as todas comigo.

E por isso os erros meus,
Sendo a má sorte que tive,
Terei que os buscar nos céus
Quando a morte tire os véus
À inconsciência em que estive.

(Fernando Pessoa)

Novas Poesias Inéditas. Direção, organização e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno. Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).

Interdependência

Interdependência

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo;
todos são parte do continente, uma parte de um todo.
Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar,
a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório,
como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio.
A morte de qualquer homem me diminui,
porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
eles dobram por ti”.

(John Donne, Meditações VII)

Onde está Deus

Árvore

O servo anunciou ao rei: “Senhor, o santo Narottan nunca se dignou entrar no teu templo real. Ele canta louvores a Deus sob as árvores, em campo aberto. Ninguém mais vai adorar no templo. Todos se reúnem em torno dele, como abelhas ao redor de um lótus branco, e deixam vazio o jarro dourado para o mel”.

O rei ficou profundamente irritado. Foi até o campo onde Narottan rezava, sentado na relva, e lhe disse: “Pai, por que abandonas o templo com a cúpula de ouro, e ficas aí, sentado no chão, para anunciar o amor de Deus?”

Narottan respondeu: “É porque Deus não está em teu templo”.

O rei olhou com desagrado, e disse: “Não sabes que foram gastos vinte milhões em ouro para construir aquela obra de arte, e que depois o templo foi consagrado a Deus com ritos custosos?”

“Sei disso” – respondeu Narottan. “Sei também que ele foi construído naquele ano em que o fogo destruiu a casa de centenas de famílias do teu povo, e que elas em vão se prostraram à tua porta, pedindo ajuda. E Deus já dizia: ‘Pobre criatura que não pode oferecer abrigo a seus irmãos, e pretende construir a minha casa!’ Deus foi fazer companhia aos desabrigados, debaixo das árvores do campo… Essa pompa de ouro de que estás falando não tem dentro dela nada mais que o ardente vapor de teu orgulho”.

O rei se enfureceu e gritou: “Vai embora de meu Reino!”

O santo lhe respondeu tranquilamente: “Sim, expulsa-me para onde expulsaste o meu Deus”.

(Tagore, “A colheita”, Paulus.)